Jamais
haverá outro Senna, mas todo o mundo pode ser a cada dia e sempre um
pouco mais Ayrton”. O trecho do vídeo publicado pelo Instituto que leva o
nome do piloto, com mais de 1 milhão de visualizações na Internet,
evidencia como a família trata o legado do tricampeão mundial de Fórmula
1, vítima de um acidente fatal no dia 1º de maio de 1994.
Ayrton Senna da Silva viveu apenas 34 anos. Pouco antes de morrer na
curva Tamburello, durante o Grande Prêmio de San Marino, o então piloto
da Williams manifestou o desejo de promover uma ação beneficente, mas
não teve tempo de conversar com a irmã Viviane sobre o assunto. Ainda
assim, a família decidiu montar o Instituto que multiplica seu legado
até os dias de hoje.
Dedicada à pesquisa e produção de conhecimento para melhorar a qualidade
da educação em larga escala, a organização sem fins lucrativos capacita
anualmente 75 mil educadores, e seus programas beneficiam diretamente
cerca de 2 milhões de alunos em mais de 1.300 municípios nas diversas
regiões do Brasil. O Instituto é financiado por recursos de imagem do
próprio Ayrton, doações e parcerias com a iniciativa privada.
“A vitória mais bonita do Ayrton é o trabalho que é feito com as
crianças, alunos de escolas públicas de todo o Brasil que a gente apoia
através da capacitação dos professores e diretores. Atendemos mais gente
que todas as faculdades de pedagogia do país, o que permite atingir uma
grande massa de jovens. Todo esse processo tem o objetivo de oferecer a
chance de ter educação e, portanto, de ter futuro”, disse Viviane,
presidente da entidade.
Pela reconhecida produção e disseminação de conhecimentos e soluções
para o desenvolvimento humano, o Instituto Ayrton Senna integra a rede
mundial de cátedras da Unesco (Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura) desde 2004. O trabalho da entidade é
motivo de orgulho para Bruno Senna, sobrinho do tricampeão mundial.
“O Ayrton deixou vários legados para diferentes tipos de pessoas. Para
quem é fã de automobilismo, deixou a impressão de ter sido o piloto mais
rápido que já existiu, um dos melhores da história. Para todos os
brasileiros, deixou o Instituto, que está há 20 anos na briga para
melhorar o país a partir da educação das crianças e jovens”, afirmou
Bruno, com passagem pela Fórmula 1.
Tricampeão mundial nas temporadas de 1988, 1990 e 1991, Ayrton Senna foi
um dos maiores ídolos do esporte nacional. Curiosamente, muitos jovens
nascidos no final dos anos 1980 e no começo da década de 1990, embora
não tenham recordações do piloto na pista, perpetuam a admiração,
fenômeno que chama a atenção da irmã mais velha do antigo competidor.
“É uma surpresa que as crianças que nem existiam na época da trajetória
do Ayrton o conheçam e admirem. A gente descobriu que são os pais que
contam para os filhos as peripécias e tudo que aconteceu na época.
Quando lançamos o documentário sobre ele, os pais compravam o filme e
passavam para os filhos, mostrando os valores que estavam por trás das
vitórias”, contou.
Boa parte dos brasileiros lembra exatamente o que estava fazendo no dia
1º de maio de 1994. Viviane e Bruno Senna, como de costume, acompanhavam
Ayrton em ação pela televisão. Vinte anos depois, com as recordações da
comoção nacional provocada pelo acidente fatal ainda frescas na
memória, os familiares do tricampeão do mundo preferem exaltar seus
feitos.
“Vinte anos é muito tempo, mas agora parece tão pouco... É engraçado,
porque quando falamos do Ayrton, as pessoas lembram exatamente onde
estavam no momento do acidente. É uma memória afetiva que não muda. Ele
trouxe algo muito especial. Não era apenas ganhar, mas sim a maneira de
ganhar. Cada vez que corria, era um show com valores como carinho, amor e
respeito”, disse Viviane.
Com oito títulos mundiais de Fórmula 1, o Brasil é superado apenas por
Alemanha (11), impulsionada pela longa hegemonia de Michael Schumacher
(7), e Inglaterra (9). Desde o falecimento de Senna, o máximo que o País
conseguiu foram os vices de Rubens Barrichello e Felipe Massa. A
escassez de glórias contribuiu não apenas com a diminuição do apelo da
categoria, mas também com a mitificação em torno do tricampeão.
O currículo construído por Senna em menos de 10 temporadas na Fórmula 1
torna cruel qualquer tipo de comparação com seus compatriotas. Vinte
anos após o acidente fatal, o piloto brasileiro ainda figura com
destaque em algumas das principais estatísticas da categoria: é o
terceiro colocado em número de vitórias (41), o segundo em pole
positions (65), o líder em poles consecutivas (8) e o quarto em pódios
(80).
O Brasil, campeão mundial oito vezes de 1972 a 1991, atualmente tem
Felipe Massa, 33 anos, como seu único representante na Fórmula 1 pela
Williams, equipe que conta com o jovem Felipe Nasr, 21, na função de
piloto de testes. Diante da precariedade do automobilismo de base, o
País que ainda se orgulha de Ayrton Senna vê sua tradição na principal
categoria do esporte a motor em xeque.
Mário Luiz (Carioca) com PB Agora