Operador financeiro dos esquemas de corrupção do ex-deputado
Eduardo Cunha e do chamado “PMDB da Câmara”, o doleiro Lúcio Funaro
revela em detalhes, no acordo de delação, como funcionava a entrega de
malas de propina para o ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel
Vieira Lima. Na edição que começou a circular nesta sexta-feira, VEJA
revela com exclusividade os principais trechos do roteiro apresentado
pelo doleiro no acordo. Segundo Funaro, em apenas dois anos, 2014 e
2015, Geddel recebeu 11,4 milhões de reais em dinheiro vivo divididos em
11 entregas operadas pelo doleiro. Os pacotes de dinheiro eram levados
em um jato particular e entregue ao próprio ex-ministro em um hangar
privado do Aeroporto Internacional de Salvador. Funaro também cita
entregas em hotéis de São Paulo e da capital baiana. Ele diz ter
entregue propina até na festa de 15 anos da filha de Geddel.
“Ao
descer do avião (com a mala de dinheiro), era indagado por Geddel a
respeito da quantia que estava sendo entregue. Geddel demonstrava
naturalidade ao receber os valores”, diz Funaro. “Recorda-se de ter
entregue dinheiro para Geddel em São Paulo, no Hotel Renaissense, na
Alameda Santos, e uma vez em Salvador, no Hotel Pestana, no dia em que a
filha de Geddel estava fazendo uma festa para comemorar seus 15 anos”,
complementa o doleiro.
Geddel voltou a ser preso em regime
fechado, pela Polícia Federal, na manhã desta sexta-feira. Ele foi
detido no último dia 3 de julho, por decisão do juiz federal Vallisney
de Souza Oliveira, tendo sido transferido para a prisão domiciliar nove
dias depois, por decisão do desembargador Ney Belo. Agora, o ex-ministro
será levado de volta para Brasília, onde cumprirá a nova detenção
preventiva, também assinada por Vallisney. O juiz ainda determinou a
prisão do advogado Gustavo Ferraz e mandados de busca e apreensão nas
casas de Geddel, da mãe dele, e de Ferraz.
A ação acontece
três dias depois da Operação Tesouro Perdido, a descoberta de um
apartamento que serviria de “bunker” para o ex-ministro. Após uma
denúncia anônima, a PF fez no imóvel maior apreensão de dinheiro em
espécie da história do país: 51 milhões de reais. Segundo os policiais,
as digitais do ex-ministro foram encontradas nas cédulas e nas caixas
que guardavam o valor dentro do apartamento.
No acordo de
delação, o doleiro Lúcio Funaro apresentou aos investigadores da
Procuradoria-Geral da República (PGR) registros de trocas de mensagens
de celular com Geddel, históricos de voos do jatinho que fazia o
“delivery” das malas para o ex-ministro, planilhas de pagamentos e, em
alguns casos, até extratos bancários das operações. Amigo pessoal de
Temer, Geddel foi ministro da Secretaria de Governo e tinha aval do
presidente para comandar as relações do Planalto com o Congresso. Na
delação, o doleiro narra em detalhes como funcionou o propinoduto na
Vice-Presidência de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal, entre
2011 e 2015, período em que Geddel comandou a repartição. Funaro
descreve o ex-ministro, “amigo e interlocutor de Temer”, como um “forte
arrecadador de doações e propinas”.
Em 2014, por exemplo,
Funaro diz ter feito nove entregas de dinheiro vivo a Geddel. Uma de
600.000 reais e outra de 500.000 reais em fevereiro, uma de 800.000
reais em março, 1 milhão em maio, mais 1 milhão em julho, 1,5 milhão em
agosto, 3,2 milhões em setembro, 1,2 milhão em outubro e 500.000 em
dezembro. Em 2015, foram duas entregas de 500.000 reais cada.
Durante
os governos do ex-presidente Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff, o
grupo do PMDB da Câmara apoderou-se de cargos estratégicos no banco.
Funaro conta que os peemedebistas usavam a influência política para
favorecer empresários dispostos a pagar milionárias propinas para
acessar as linhas de financiamento da Caixa.
Funcionava
assim. Ora Lúcio Funaro ora Eduardo Cunha faziam os contatos com
empresários interessados em obter empréstimos junto ao banco. Depois de
negociar os valores da propina, Cunha negociava a liberação dos recursos
com Geddel, que ocupava a vice-presidência de Pessoa Jurídica do banco.
Quando o dinheiro saia, a propina era paga às empresas do doleiro Lúcio
Funaro, que providenciava a partilha da propina.
No
período em que o PMDB comandou o esquema na Caixa, cerca de 5 bilhões de
reais, a sua maioria extraídos do FI-FGTS, um fundo de investimentos em
infraestrutura administrado pela Caixa, foram liberados para empresas
que pagaram aos peemedebistas mais de 170 milhões de reais em propinas.
Lúcio
conta que conheceu Geddel por intermédio de Eduardo Cunha. O doleiro
pagou propina pela primeira vez a Geddel depois de o peemedebista ter
favorecido o empresário Joesley Batista, da J&F, em um negócio de
300 milhões de reais. O primeiro encontro ocorreu no hangar da Ibero
Star, no aeroporto de Salvador. Funaro desceu com a mala recheada de
dinheiro, conversou com Geddel por menos de dez minutos e voltou para o
avião. Um encontro frio e rápido.
Com o tempo, porém, as
entregas tornaram-se cada vez mais frequentes e Geddel, perdeu a
cerimônia. Lúcio passou a entregar malas de dinheiro para o peemedebista
em hotéis de São Paulo e Salvador e até no aniversário de 15 anos da
filha de Geddel. O doleiro lembra que era comum, nas entregas de
propina, ser recebido por um Geddel ansioso no aeroporto. Segundo o
doleiro, durante os minutos que estava com o ex-ministro no hangar para
repassar as malas, os dois “conversavam brevemente sobre política e
sobre as próximas operações vislumbradas”. Lúcio diz no acordo que
A
rotina de entregas seguiu firme e forte mesmo depois da deflagração da
Operação Lava-Jato. Lúcio conta que não interrompeu o esquema porque ele
e Geddel acharam que as investigações da Lava-Jato na Petrobras não
iriam se expandir para outros setores do governo. O esquema mudou quando
Lúcio passou a figurar como potencial alvo da polícia. O delator conta
que, um pouco antes de ser preso, recebeu um recado de Geddel para que
interrompesse os pagamentos. “Não… Para. Dá uma segurada e depois nós
acertamos isso aí”, disse Geddel.
A última operação realizada
por Geddel na Caixa ocorreu em 2015 e rendeu 20 milhões de reais em
propina. O empresário Joesley Bastista pediu a Funaro a liberação de um
crédito de 2,7 bilhões de reais, para a compra da Alpargatas, combinando
o pagamento de uma comissão de 3% pela operação. Lúcio pediu a Geddel a
liberação do crédito no banco. Antes de receber a propina, no entanto,
Funaro foi alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal, o
que assustou Geddel, que avisou: “Deixa esse dinheiro aí com você, não
quero saber desse dinheiro, não sei o que pode lhe acontecer, se
precisar você já tem dinheiro contigo”
Da Redação com Resumo PB